domingo, 3 de maio de 2009

Monto o que? Outro Nelson!

Fim do espetáculo, todos os atores se desnudam e recolhem o grande colchão redondo – único elemento do cenário. Em um bate papo corriqueiro com a Cia, o Diretor fala informal e descontraído: Monto o que? E o grupo, que acaba de realizar uma obra do Nelson Rodrigues, exprime: Outro Nelson!

Ilustração: Tito Oliveira

Ilustração: Tito Oliveira

Curiosa, eu lanço a enquete: Por que visitar e revisitar Nelson Rodrigues? Que ele é considerado um dos melhores dramaturgos da segunda metade do século XX, o mais polêmico e o mais montado, pelo menos é o que parece pela quantidade de encenações, o público já sabe. Só o ano passado, aqui em São Paulo, Nelson foi montado pelos Satyros, com “Vestido de Noiva”, por Marco Antonio Braz, e 17 X Nelson - O Inferno de Todos Nós, seleção de cenas de diversas peças que, apresentadas em seqüência, mostram a evolução da dramaturgia de Nelson Rodrigues, apresentada pela Cia. Antikatartika Teatral. “Senhora dos Afogados”, ganhou duas versões: uma versão musical do diretor Zé Henrique de Paula - que inseriu dez canções para acentuar o lirismo do texto -, e outra assinada por Antunes Filho, que permaneceu em temporada estendida no SESC Anchieta devido ao sucesso de crítica e a platéia cheia. Além das atividades complementares aos espetáculos, foi realizada uma mostra dedicada ao dramaturgo no Centro Cultural São Paulo: “Gestos Rodriguianos”, onde foi apresentada 60 imagens, entre cartazes e fotografias, de antigas montagens de peças do autor, e documentários sobre a vida do dramaturgo. Nelson Rodrigues definitivamente rouba a cena nos palcos e nas mesas redondas sobre o Teatro Brasileiro. E olha que o autor só está completando 97 anos, já imaginou o que vai acontecer no seu centenário em 2012? E para dar a sua versão, o diretor Claudio Mendel, responsável pelo “Monto o que?”, juntamente com a Cia Teatro da Cidade, responsável pelo “Outro Nelson”, trazem de São José dos Campos, uma nova roupagem para o “Toda Nudez Será Castigada” (1964).

Foto: Tito Oliveira

Foto: Tito Oliveira

Uma montagem que não deixa nada a desejar a cena paulistana e que representará, juntamente com mais três outros espetáculos “verde e amarelo”, o Teatro Brasileiro na Bolívia. O espetáculo cumpre turnê nos dias 17 e 18 de abril no Festival de Santa Cruz De La Sierra e 21 de abril no El Bicentenário de Teatro La Paz, ambos na Bolívia. Falando em Bolívia, é possível verificar também o reconhecimento internacional do autor. “Sou um grande admirador de Nelson Rodrigues. Considero um dos grandes autores latino americanos e o maior dramaturgo brasileiro de todos os tempos. Será uma grande oportunidade para o público boliviano ver representada uma de suas obras”, declara Marcelo Arauz, coordenador do Festival Internacional de Santa Cruz De La Sierra. Então, além da relevância que já está explícita, vamos saber através do diretor Claudio Mendel, em entrevista exclusiva, a grande questão que permeia esta matéria:

Foto: Tito Oliveira

Foto: Tito Oliveira

Porque montar e remontar Nelson Rodrigues em pleno século XXI?

CM: Essa foi a pergunta que norteou a decisão de retomar um trabalho de sucesso já realizado por nós, no início da década de 90. E a resposta não demorou muito a aparecer, pois a companhia estava mais madura, às vésperas de completar seus 18 anos de atividade, e, portanto, pronta para um mergulho radical na busca da teatralidade do ator, enquanto Ser Criador de uma obra de arte. E nada melhor que se “retrabalhar” numa obra do Nelson.

O que o levou a este mergulho na teatralidade?

CM: Esta busca foi proveniente da inquietação do desconhecido e da necessidade de desenvolvimento do ator.

Quando se deu o trabalho?

CM: Iniciamos este processo de trabalho com Toda Nudez Será Castigada, no final de 2005 e em cada montagem existe sempre uma descoberta, uma mudança.

Discorra um pouco mais sobre essas descobertas provenientes de uma montagem já concebida.

CM: Ao longo de dois anos, a obra de Nelson foi revista e revisitada até chegarmos neste resultado. Ao mesmo tempo que despojada, esta atual montagem, alcançou uma ousadia estética e de interpretação, comprometida com a grandiosidade de um texto sintético, preciso e intenso do dramaturgo.

O que norteou o seu trabalho como Diretor nesta remontagem?

CM: Buscamos subsídios nos instintos humanos, na Narrativa, no Épico e na teatralidade dos mestres do Teatro. Durante o processo, muitas ferramentas utilizadas pelo ator nos permitiram traduzir para a cena todas as contradições aparentes nas relações humanas, dentro do símbolo macro que é a “família” e do “círculo” familiar propriamente dito.

Você rompeu com o antigo cenário e trouxe para cena os espectadores. Conta um pouco sobre essa concepção circular.

CM: Rompemos o espaço cênico, por necessidade e por desnudamento do elenco e da platéia. Avançamos. Trouxemos o espectador para dialogar conosco. Acabamos com a comodidade da platéia e fizemos “circular” sobre ela, todas as imagens contadas e vivenciadas por cada uma das personagens. E por isso a concepção circular da encenação. Ao mesmo tempo núcleo e ao mesmo tempo célula.

E para finalizar, qual a sua próxima montagem?

CM: Que tal mais uma dose de Nelson Rodrigues?! (risos)